Textos


PEIXE FORA DO AQUÁRIO

Macheza explícita e recato exacerbado caminham lado a lado, isso é fato. Não raro escutei o sonoro "há coisas que você não deve saber", ou "sexo não é assunto pra você, se contente em ter alguém do lado sem questionar como". Ah, e o meu preferido, "tá saidinha... onde mesmo e com quem você tem aprendido essas coisas?"

Tudo sempre transcorreu dessa forma até ser psicologicamente atacada por um relacionamento que não admitia que naquele instante da vida necessitaria de tadalafila muito menos buscar ajuda psicológica para aceitar o momento.

Então precisei eu entender toda aquela horda de desaforos e desdém. Muito verde nesses assuntos, afinal, nunca entendi porque meus namorados insistiam em encontros paralelos, simplesmente chutava o balde e mais adiante recomeçava, sendo que cairia na mesma cilada, e era tudo muito simples: a educação de um segmento de que há uma etiqueta sexual a ser seguida pela que irá casar e a que não irá, que confesso nunca curiei saber. 

Depois já finalizando os trinta e entrando na casa dos quarenta soube que um pretenso relacionamento não vingaria porque se já "conheceu" homem, já fez "aquelas coisas" pra não perder o cara.

Também confesso que não me interessei em saber o que tem que ser escondido e que depois de feito não há mais retorno.

E esse foi um momento delicadíssimo de minha vida, pois, havia um "exército em campanha" para descobrir a minha intimidade conjugal, haja vista se consagrar o devido recato ou não.

Tudo isso por mim compreendido após expor o drama a amigos gays e eles carinhosamente me explicarem de cabo a rabo o Kama Sutra e todos os apelidos para cada posição e a devida sequência.

Como não me choco com essas coisas rimos muito, ainda mais que por mais que meus relacionamentos tenham ido pro espaço, ninguém me pediu, obrigou, exigiu, chantageou absolutamente nada.

Tanto que meu terapeuta, como já escrevi em outra oportunidade, sempre me diz que não conhece solteira mais casada do que eu, e que só preciso entender que toda infidelidade a mim conferida sempre foi proteção daquilo que eles, meninos, aprenderam e piamente rezaram a cartilha a não ser um único relacionamento por se tratar de violência psicológica misógina. Ou seja, o problema não estava em mim e ao mesmo tempo estava em mim pelo fato de questionar e não apenas me quedar representar o papel a mim deferido. 

Mas uma vez na vala comum, a ideia de que mulher com opinião assusta. "Você precisa controlar essa mania de tudo inquirir; de tudo avaliar". Hummmmm, sei não... 

Fato é que pressinto em certos ambientes os quais frequento uma polarização social onde há mulheres aprisionadas em relacionamentos por "quebrarem" dogmas a elas conferido pelo matrimônio, ao mesmo tempo que socialmente dissimulam suas práticas "pecaminosas" sabe-se lá porquê em vestes cadenciadas em tons de voz adengados e sorrisos contidos em camuflada timidez, versus mulheres que não dão a menor bola para essa etiqueta sexual, seja no falar ou no agir. E eu vivendo esse limbo entre um tipo e outro em mais uma sessão de terapia.

Afinal, a incompreensão é latente entre aquelas que acreditam estar fazendo sexo errado (porém secreto) quando eu é que deveria fazê-lo, na minha condição de solteira, assim como as "liberadas" repudiarem a minha presença antipaticamente pudica ao que se espera de meu estado civil e independência financeira, tão igual ao delas porém (segundo elas) me julgando "lapidada".

Nem ao céu, nem ao mar. Como diz a canção "sou pura fama" e só me resta o meu caminho trilhar da melhor forma que me aprouver amar.
_____________
Luana Sávia Aires
Enviado por Luana Sávia Aires em 17/01/2019
Alterado em 20/01/2019
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.


Comentários