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BEM PASSADO

- Eu não entendo, aqui acolá vocês se encontravam nos lugares, conversavam amistosamente. Eu mesma testemunhei como você se retirou silenciosamente da vida dele, voltando para sua cidade, sua casa, recomeçando os estudos, fazendo novo círculo de amigos, sem mágoas, sem queixas, porque tudo isso depois de tantos anos afastados e depois de você já ter vivido dois relacionamentos.

- Ele quis fazer gracinha. Ama brincadeira de mau gosto. Acabou brincando com as pessoas erradas e a coisa complicou.

- Você tem mágoa?

- Dele não. Afinal, a impertinência e o desrespeito que estamos aqui discutindo me fizeram desencantar e trabalhar gradualmente a minha saída. 

- O que te afligiu então?

- Como disse antes, haver brincado com as pessoas erradas. Construíram uma verdade em cima da fala dele e eu não tenho como me defender da difamação, só mesmo abstrair e tocar a vida pra frente.

- Lembra o saco de plumas que você tanto usava nas reuniões com mulheres que sofriam violência.

- Exatamente. Na cidade dele era mais fácil manusear a situação porque todos conhecem as que vieram antes de mim. Ele desdizer uma mulher ali, ao contrário, é sinal de ser uma pessoa do bem.  

- Daí o sarcasmo. Ferina você, hein?

- Gosto de brincar com as ofensas. Sei quem sou e me basta. Quando "assumo" o ultraje fica difícil usar novamente porque não me fere, mas leva o acusador a tentar justificar e é onde se enrola.

- Derruba a máscara da moralidade.

- Desvenda a insanidade preconceituosa.

- Considera um relacionamento abusivo?

- Não. Não houve tempo pra tanto, Amém. Apenas uma pessoa tóxica que me colocou numa posição vulnerável ante outras pessoas tóxicas com algo que já não representava mais nada para o projeto de vida que vinha edificando.

- Quantas depois de você?

- Pelo que me falaram - precisei saber como o monstro se desenhou via terceiros - seis. Mas sinceramente, não me importo. Cada uma no seu tempo certo saiu "cachorra" da relação.

- Que horror!

- De boa. Enxerguei a oportunidade. Aprendi a canalizar o mal para o bem. 
Faço meu trabalho voluntário erguendo outras mulheres que passaram por coisa pior. 

- E os meninos que vieram depois dele?

- Um mora no estrangeiro. Sabia que tinha vencimento, mas dei o meu melhor "posto que foi chama". O outro... não convivo bem com ciúme e nem marcação cerrada. 

- Não era amor.

- Era cilada. Livramento.

- Respeito e confiança tem de ser recíprocos, se não há, melhor não forçar.

- E você?! Ainda ficando com o carinha do décimo andar?

- Não, saí pela tangente. Relacionamento aberto era pra ele, mas quando chegava a minha vez, dava um jeito de me "trancar". Mas mudando de assunto: depois de quase dois anos estamos ambas sozinhas.

- Bem-vindas às prosas, vinhos e cafés!

- Programinha de fim de semana?

- Vamos a la playa.
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Luana Sávia Aires
Enviado por Luana Sávia Aires em 09/08/2019
Alterado em 10/08/2019
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