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QUEBRANDO AS CORRENTES 

Escrevi um poema sobre insistir em não-amores. Um querido ao ler comentou: "então não vale a pena navegar para o que já está morto".

Claro que não vale a pena lutar o que por óbvio é em vão. Mas o poema quis retratar exatamente quem são essas mulheres que amam o amor que sentem por um homem.
Mulheres que de tão absortas em querer projetar ao outro o bom afeto, procuram - e acreditam que encontram - no silêncio, na indiferença e no desdém um sinal de reciprocidade.

- É charminho - me diz uma com um dúzia aplaudindo por detrás e por aí vai.

Incrível como para todo vácuo deixado pelo homem dos sonhos existe uma justificativa. O quão adoçam a voz para enaltecer o ferir do moço com um "está tudo bem porque amar também é sofrer".

Assim foram meus dias de voluntária numa entidade que cuida de pessoas, sobretudo mulheres, com tristeza profunda, depressão e potenciais suicidas. Afinal, insitinto para machucar, manipular, quem quer que seja tem gente exalando por aí aos bandos.

E o que essas mulheres tem em comum para ali se reunirem? Todas adoeceram após relacionamentos abusivos, quando não, porque amaram ou amam demais a ponto de achar que o que sentem é suficiente para dois.

Mulheres que passaram um longo período fazendo o certo para as pessoas erradas - algumas ainda fazem -, fomentando para si mesmas um acúmulo de pensamentos e coisas inúteis, bem como companheiros tóxicos, alimentando algo que não irá acontecer, seja o relacionamento em si, seja a reciprocidade se já se relacionando e inutilmente amando em carreira solo.

Todo relacionamento - não só os amorosos - é uma via de duas mãos, ou seja, necessita de uma troca saudável de afeto, cuidado, respeito, confiança e atenção para dar certo. Numa relação em que só um dos indivíduos se doa e o outro só recebe, cria-se um abismo e a consequência é a dor emocional.

Superar limites, romper com crenças incapacitantes, valorizarem-se tanto quanto enaltecem o outro. Para nós os voluntários a tarefa é ao mesmo tempo exaustiva e reconfortante de trabalhar o convencimento dessas mulheres de que a felicidade reside no interior de cada uma, e que todas elas só dependem - de per si - delas mesmas para arrebentar as grades da jaula do grande mal que lhes aflige. 

Nem dominar, nem prender, nem desdenhar. Amar não é disputa de quem pode mais sobre o outro, mas permitir livre aquele a quem se oferta todo o bem, pois tudo o que aprisiona a ninguém convém. 
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Arte Iris Scuccato
Luana Sávia Aires
Enviado por Luana Sávia Aires em 26/01/2019
Alterado em 26/01/2019


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